quarta-feira, 29 de abril de 2009

Sinopse

Sinopse


Miséria da Ciência é um livro polêmico. Primeiro, porque busca radicalizar o enfoque transdisciplinar sobre a história dos homens e a história das idéias dos homens. Segundo, porque procura entender os fundamentos da crise contemporânea e de suas dimensões intelectuais, morais e espirituais. Terceiro, porque ousa questionar o Logos da Razão Material e da Concepção Dicotômica de Mundo, fruto da encruzilhada teórica que teria hegemonizado a lógica da separatividade (Parmênides, Pitágoras e Aristóteles) em oposição à idéia de totalidade (Heráclito, Platão e Sócrates).

Em sua essência, Miséria da Ciência é, sobretudo, um livro polêmico, porque busca identificar, não apenas uma única ruptura, porém uma dupla ruptura na história do desenvolvimento do homem, particularmente no Ocidente, como resultado de um processo de confrontação da visão dicotômica de mundo e não apenas do cartesianismo. O livro também busca ressaltar uma necessidade, cada vez mais urgente, de recuperação de uma dimensão ontológica do mundo e das coisas...


PARTE I




Prefácio

Nos últimos séculos, a ciência tendeu a apologizar o conceito de objetividade científica. Tal dominância se deveu à utilização de um procedimento metodológico que estabeleceu a separação entre sujeito e objeto, e representou uma opção metodológica absolutamente coerente com uma visão cartesiana e dicotômica de mundo.

Hoje, estudar os fenômenos da sociedade humana com base numa visão cartesiana de mundo ainda é a norma vigente no mundo acadêmico, já que tal visão costuma ser reconhecida como verdade universal. O difícil é transcendê-la, de uma maneira substantiva e menos propensa aos ditames da moda. Com este enfoque, o grande desafio deste livro é questionar o modelo arquetípico de mundo vigente no ocidente, centrado na dicotomia, como resultado do processo de fragmentação do Real pela Mente Humana na construção da História da Vida.

Este é, basicamente, o fundamento epistemológico do livro Miséria da Ciência[1]. Em princípio, o objetivo da tese era simples e despretensioso: analisar o sentido e o alcance das políticas de privatização de uma maneira articulada com o processo de formação de alguns países latino-americanos, que surgiram no momento do advento do capitalismo. Dentro do modelo proposto, tais países teriam sido criados como resultado da alternância história do embate dicotômico entre centro e periferia e como um espaço de constituição dicotômica do capital, ou seja, como um Não-Eu para o capital.

Na medida em que os estudos continuaram, ficou cada vez mais claro que havia uma necessidade de retomada de uma discussão ainda mais densa, que pudesse recolocar o conceito de dicotomia em suas bases filosóficas. Com isso, esperava-se entender o cenário no qual o embate em torno da publicização do privado e da privatização do público pudesse ser interpretado. Miséria da Ciência é, portanto, o resultado desta discussão filosófica. Procurando recuperar a contribuição dos pré-socráticos na sistematização da História da Vida, o livro estudou a gênese da dicotomia, procurando entender a temporalidade de conceitos e teorias, resultando na discussão da aporia do racionalismo enquanto marco interpretativo.

Em sua essência, isto significa dizer que os estudos exigiram um redimensionamento do objeto de pesquisa, de forma a incluir, numa incursão introdutória, teórica e transdisciplinar, o debate do público versus privado na filosofia e na história. No decorrer deste processo, dois pontos ficaram evidentes, relativamente aos aspectos extrínsecos e intrínsecos do problema:




a) ao nível de sua formulação exteriorizada[2], o debate entre público & privado parece explicitar um crescendo histórico de substantivação de uma visão dicotômica de mundo, cujo manancial tende a ser localizado em pensadores gregos, particularmente Parmênides, Pitágoras e Aristóteles. Nestes pensadores, o caráter público se contrapõe ao privado, da mesma maneira que o indivíduo se contrapõe ao Estado.


b) ao nível de sua caracterização implícita, este debate parece ser capaz de desvelar a imanência funcional dos conceitos de público / privado, passível de reforçar o privado como unidade fundante e o público como a forma manifesta, decorrente e híbrida desta relação.


No terreno dos estudos de caso e na particularidade / generalidade da própria história mundial contemporânea, estudar a privatização sob este prisma exigiu um aperfeiçoamento do arsenal teórico metodológico disponível. Por um lado, houve necessidade de um esforço teórico no sentido de deslindar o caráter dicotômico / dialético da hegemonização dos conceitos de público e privado desde o advento da História. E por outro, constatou-se a necessidade de entender e flagrar a fulcralidade do papel do Estado como um instrumento de apropriação privada na Idade Antiga e na vigência do capitalismo[3].

Segundo a concepção dicotômica de mundo, o debate em torno do caráter fundante dos conceitos de indivíduo, privado e Estado, a partir da visão logóica dos gregos até os dias atuais, não é novo, nem tampouco original, já que está presente na própria dinâmica do processo civilizatório em sua concepção tradicional. No entanto, polemizar sobre as dicotomias indivíduo versus Estado e público versus privado, de forma a incluir uma visão histórica, terminou representando um grande desafio, já que exigiu a incorporação de uma matriz espaço-temporalmente muito mais ampla.

Além disso, alguns problemas adicionais surgiram. Em primeiro lugar, o tema era extremamente rico e exigia um tratamento transdisciplinar. Segundo, porque o próprio espaço da transdisciplinaridade continua ainda impreciso, demandando uma preocupação constante e dialógica entre o geral e o particular, o que, neste caso, significava levar em consideração as categorias indivíduo e Estado e público e privado, de uma maneira epistemológica e historicamente. Terceiro, porque as abordagens generalistas, principalmente quando se almejam transgressoras, costumam ser desqualificadas no mundo acadêmico.

E quarto e último ponto, porque estudar um fenômeno específico, no caso, a privatização, dentro de um quadro referencial genérico, procurando entender o caráter dialético da inserção do público e do privado no mundo real e não apenas descrevê-los, poderia ser, no mínimo, uma temeridade.

[1] Este livro é produto da tese de doutoramento da autora, intitulada A Roda da Angústia, que discute as políticas de privatização na América Latina e representa um resumo de seu modelo teórico.
[2] Esta abordagem mantém uma relação de contingenciamento com os conceitos, extraídos da física quântica, de "Ordem Implícita" e de "Ordem Explícita", tal como referenciado por David Bohm.
[3] Vide os apêndices I e II no final do livro.

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