sexta-feira, 1 de maio de 2009

Filosofia e história: uma via de mão dupla

Vencida esta primeira etapa de cotejamento com o mundo real, é possível considerar que o próximo passo na construção do modelo discutido neste livro implica em retomar o diálogo entre Mente e Matéria. Ou seja, ele propõe discutir sobre a necessidade de transcender a cosmo-visão convencional, aprisionada pelos sentidos e endeusada pela ciência cartesiana, desde que se pretenda entender os desafios atuais da própria odisséia humana. O pressuposto é claro: circunscrever a análise das políticas de privatização à ideologização do discurso político ou à racionalização do discurso técnico, sem questionar-lhes os seus fundamentos ou os entraves estruturais potencialmente previsíveis na parametrização do processo de confrontação da atual crise mundial, seria o mesmo que assumir uma atitude, no mínimo, temerária e, no máximo, teórica e historicamente irresponsável e incompetente.

Tal atitude de vigilância epistemológica imporia perseguir uma direção divergente da convencional: ao invés de estabelecer um corte analítico de curto prazo, o fulcro do modelo teórico desenvolvido neste livro implica em perscrutar o caráter fundante, recorrente e dialético do privado na histórica da civilização ocidental, de uma maneira cotejada com a visão dicotômica de mundo que lhe dá substância, buscando identificar-lhes algumas constrições cíclicas dentro de uma perspectiva de curto e de longo prazo.

Desdobramento do modelo

Após a explicitação do modelo teórico adotado[1] e para torná-lo compreensível, é necessário dar um passo adiante, buscando desenvolver o debate da dicotomia com o da privatização. Do ponto de vista ainda filosófico, isto significa buscar exercitar um diálogo entre Mente e Matéria. Do ponto de vista histórico, por outro lado, isto exige a apresentação de estudos de caso e o cotejamento com o mundo real.

Avançar nesta última direção exigiria, por exemplo, considerar três importantes correlações:

A crise do sistema produtor de mercadorias - ao nível da matéria

Este tema poderia ser desenvolvido com base no sensoriamento de sinais de uma crise global, passível de ser evidenciada por meio de: a) uma aceleração do progresso técnico em sintonia com a queda tendencial da taxa de lucro (particularmente na chamada fase descendente do quarto ciclo); b) uma eclosão de crise econômica (induzindo a adoção de políticas, tais como: substituição de importações, endividamento externo e privatização); c) uma visão de curto prazo dentro de uma situação de problematização fiscal, monetária e distributiva.

Dentro deste esquema, o caráter cíclico e complementar das políticas de substituição de importações, endividamento externo e privatização, por exemplo, dentro da fase atual de hegemonização do capital financeiro, poderia contribuir para evidenciar o crivo dicotômico: ou seja, cada uma delas poderia ser identificada como forma diferenciada de se gestionar o processo econômico em favor do capital e às expensas do homem.

Neste sentido, as políticas de privatização poderiam ser concebidas, de fato, como um momentum necessário, porém francamente temerário, à nova reordenação do capital global, no qual a dinâmica do processo de produção e de circulação do capital estaria a potencializar o seu próprio fetiche: o espaço ampliado e aparentemente infinito dos Estados-nações, não mais reduzido à especificidade da territorialidade, passaria a ser subjugado pelo caráter fundamentalmente privado que permeia as relações intra/inter entidades transnacionais, interligadas, preferencialmente, à esfera financeira, nas quais o poder onisciente e onipresente do capital seria exercitado às expensas do homem.

Em outras palavras, isto significa supor, que, não mais apenas o Homem, porém também os próprios Estado-nações, se encontrariam no limiar de sua transmutação em mercadoria. Ou seja, a mercantilização do processo global se profundiza hoje em extensão e amplitude, o que, contrariamente ao que se supõe, parece ser um primeiro ponto constritivo na definição de uma verdadeira e duradoura política de paz.

A crise do Estado-nação e a crise de cidadania - ao nível da consciência

Do ponto de vista político, a substituição atual do momento de publicização do privado pela privatização do público, em escala ampliada, estaria sendo engendrada num momento histórico caracterizado pelo declínio do Estado-nação em face da própria dinâmica do processo de globalização. Isto é reforçado pelo fato de que a globalização econômica, malgrado a integração dos mercados e a superação de marcos territorial, têm sido alicerçadas na separatividade crescente entre indivíduos, povos e nações, ou seja, tanto interna, quanto externamente. Dentro deste contexto, o próprio processo de integração entre Estados-nações enfraquecidos, do ponto de vista do marco institucional, estaria ocorrendo num momento caracterizado pelo aprofundamento da subjugação de uns em detrimento de outros, sob o domínio do capital financeiro, re-lastreado pela dinâmica da privatização. Tal movimento parece ser, no mínimo, temerário, porquanto sem precedentes na dinâmica da vida.

Por outro lado e do ponto de vista social, o próprio processo de globalização de mercados e da economia mundial também teria se desenvolvido em contraponto a um crescendo da desigualdade entre Estados-nações reais, seus povos constitutivos, seus indivíduos e seus próprios espaços internalizados e/ou regionalizados. As políticas de privatização, inclusive, contribuiriam para ampliar o leque destas desigualdades, na medida em que estas políticas tendem a privilegiar os resultados econômicos e financeiros de curto-prazo, em contraposição, no terreno do real, às conquistas sociais espaço-temporalmente mais amplas ou, no terreno do ideal, à inserção menos conflituosa do homem no processo produtivo. Daí porque, e dadas às condições objetivas para a apologização do progresso técnico, reinstala-se, mais uma vez, o crivo dicotômico: privilegiam-se o incremento da produtividade e da eficiência, ou seja, as variáveis econômicas e desprivilegiam-se as dimensões sociais, representadas pela ubiqüidização do emprego e distribuição da renda.

A crise do paradigma cartesiano-newtoniano - ao nível da luz[2]

Hoje, mais do que nunca, a sociedade humana parece caminhar para um estado de estrangulamento crônico: e a própria justaposição de crises parece desautorizar, completamente, as abordagens fragmentárias e particularistas dos processos históricos. Neste sentido, a inexorabilidade das crises e a sua forma de manifestação atual não poderiam ser consideradas, ao mesmo tempo, como causa e conseqüência de uma mesma problemática. Pelo contrário, elas tendem a colocar em xeque, como corolário, o próprio modelo explicativo de mundo.

Este é um dado forte, mesmo que desconsideremos o aspecto meramente singular da crise, ou seja, o seu caráter de inevitabilidade. Afinal, muitas crises já aconteceram na história; no entanto, a prodigalidade e extrema complexidade da crise atual poderiam indicar, no mínimo, o caminho da cautela.

[1] Atenção para o fato de que o modelo é formado por três instâncias - luz, matéria e espaço-consciencial - articuladas. Ou seja, ele pode ser entendido, a grosso modo, como 3 em 1.
[2] Enquanto marco referencial das explicações científicas.

A visão holística

Aplicado ao tema da privatização, a visão holística implica em desenvolver um olhar teórico e metodológico a partir da utilização do conceito de matriz holopoiética fundamental. Esta matriz procura perscrutar a interação do eixo da matéria (políticas de privatização) com o eixo da consciência (países latino-americanos, por exemplo) permeado pela luz da visão dicotômica de mundo (quadro de referência).

Esquematicamente, isto significa considerar que esta metodologia permite sintetizar o olhar sobre a aplicação das políticas de privatização da seguinte maneira:


LUZ
Visão dicotômica de mundo

MATÉRIA ESPAÇO-CONSCICENCIAL
Políticas de Estado-nação
Privatização


Em termos práticos, isto equivale a considerar as políticas de privatização numa visão muito mais ampla do que a que costuma ser convencionalmente aceita. Em termos teóricos, ou seja, buscando transcender às visões de causa-efeito e/ ou de curto-prazo, isto também permite discutir a problemática da privatização dentro do embate dicotômico do público versus privado e do indivíduo versus Estado, cotejadamente pela filosofia e pela história. Desta forma, torna-se plausível a identificação de insights passíveis de contribuir para a discussão teórica em torno do processo de acumulação de capital, de forma a entender a plausibilidade de ampliação e/ou constrição cíclica do processo global dentro de uma perspectiva de longo prazo.

O modelo

Para resolver este problema metodológico, este livro procurou, num primeiro momento, chamar a atenção para a plausibilidade de se resolver o desafio da transdisciplinaridade por meio da utilização do conceito de matriz holopoiética fundamental[1]. Primeiro, porque este conceito é uma chave potencialmente importante para a antagonização de uma visão fragmentária de realidades. Segundo, porque o caráter inovador desta matriz, que tem como base as conquistas recentes da física quântica e da teoria da relatividade, consiste na adoção de um método-tentativa de recuperação de uma visão integrativa do mundo e das coisas do mundo, em contraposição à noção de separatividade dualística que está implícita nas relações tradicionais entre sujeito e objeto.

Formulada triadicamente[2], esta matriz permite estabelecer a passagem de uma concepção de mundo absoluto para um mundo relativizado pelas noções convencionais de espaço-tempo, com base num método que busca transcendê-la. Daí porque, consoante com esta metodologia, este livro procura entender o processo de fragmentação do Real pela Mente humana na construção da história da Vida, a partir do estudo do discurso e da práxis da privatização.

A sua hipótese fundamental, portanto, implica em considerar as políticas de privatização como uma forma de exercício recorrente da visão dicotômica de mundo no espaço constitutivo dos Estados – nações.
[1] A matriz holopoiética fundamental (MPH) é uma das chaves conceituais do paradigma holística, significando uma "representação da passagem do mundo absoluto, isto é, do espaço-energia atemporal para o mundo relativo do espaço-tempo". Vide WEIL, Pierre (1992). Axiomática Transdisciplinar para um novo Paradigma Holístico. Brasília: UnHI,
[2] A Lei de Três costuma ser recorrente no mundo da Vida, sendo bastante conhecida das tradições seculares e do pensamento cristão. Uma visão neo-positivista desta lei pode ser encontrada em PEIRCE, Charles Sanders (1975). Semiótica e Filosofia. São Paulo: Cultrix / EDUSP.