Após a explicitação do modelo teórico adotado[1] e para torná-lo compreensível, é necessário dar um passo adiante, buscando desenvolver o debate da dicotomia com o da privatização. Do ponto de vista ainda filosófico, isto significa buscar exercitar um diálogo entre Mente e Matéria. Do ponto de vista histórico, por outro lado, isto exige a apresentação de estudos de caso e o cotejamento com o mundo real.
Avançar nesta última direção exigiria, por exemplo, considerar três importantes correlações:
A crise do sistema produtor de mercadorias - ao nível da matéria
Este tema poderia ser desenvolvido com base no sensoriamento de sinais de uma crise global, passível de ser evidenciada por meio de: a) uma aceleração do progresso técnico em sintonia com a queda tendencial da taxa de lucro (particularmente na chamada fase descendente do quarto ciclo); b) uma eclosão de crise econômica (induzindo a adoção de políticas, tais como: substituição de importações, endividamento externo e privatização); c) uma visão de curto prazo dentro de uma situação de problematização fiscal, monetária e distributiva.
Dentro deste esquema, o caráter cíclico e complementar das políticas de substituição de importações, endividamento externo e privatização, por exemplo, dentro da fase atual de hegemonização do capital financeiro, poderia contribuir para evidenciar o crivo dicotômico: ou seja, cada uma delas poderia ser identificada como forma diferenciada de se gestionar o processo econômico em favor do capital e às expensas do homem.
Neste sentido, as políticas de privatização poderiam ser concebidas, de fato, como um momentum necessário, porém francamente temerário, à nova reordenação do capital global, no qual a dinâmica do processo de produção e de circulação do capital estaria a potencializar o seu próprio fetiche: o espaço ampliado e aparentemente infinito dos Estados-nações, não mais reduzido à especificidade da territorialidade, passaria a ser subjugado pelo caráter fundamentalmente privado que permeia as relações intra/inter entidades transnacionais, interligadas, preferencialmente, à esfera financeira, nas quais o poder onisciente e onipresente do capital seria exercitado às expensas do homem.
Em outras palavras, isto significa supor, que, não mais apenas o Homem, porém também os próprios Estado-nações, se encontrariam no limiar de sua transmutação em mercadoria. Ou seja, a mercantilização do processo global se profundiza hoje em extensão e amplitude, o que, contrariamente ao que se supõe, parece ser um primeiro ponto constritivo na definição de uma verdadeira e duradoura política de paz.
A crise do Estado-nação e a crise de cidadania - ao nível da consciência
Do ponto de vista político, a substituição atual do momento de publicização do privado pela privatização do público, em escala ampliada, estaria sendo engendrada num momento histórico caracterizado pelo declínio do Estado-nação em face da própria dinâmica do processo de globalização. Isto é reforçado pelo fato de que a globalização econômica, malgrado a integração dos mercados e a superação de marcos territorial, têm sido alicerçadas na separatividade crescente entre indivíduos, povos e nações, ou seja, tanto interna, quanto externamente. Dentro deste contexto, o próprio processo de integração entre Estados-nações enfraquecidos, do ponto de vista do marco institucional, estaria ocorrendo num momento caracterizado pelo aprofundamento da subjugação de uns em detrimento de outros, sob o domínio do capital financeiro, re-lastreado pela dinâmica da privatização. Tal movimento parece ser, no mínimo, temerário, porquanto sem precedentes na dinâmica da vida.
Por outro lado e do ponto de vista social, o próprio processo de globalização de mercados e da economia mundial também teria se desenvolvido em contraponto a um crescendo da desigualdade entre Estados-nações reais, seus povos constitutivos, seus indivíduos e seus próprios espaços internalizados e/ou regionalizados. As políticas de privatização, inclusive, contribuiriam para ampliar o leque destas desigualdades, na medida em que estas políticas tendem a privilegiar os resultados econômicos e financeiros de curto-prazo, em contraposição, no terreno do real, às conquistas sociais espaço-temporalmente mais amplas ou, no terreno do ideal, à inserção menos conflituosa do homem no processo produtivo. Daí porque, e dadas às condições objetivas para a apologização do progresso técnico, reinstala-se, mais uma vez, o crivo dicotômico: privilegiam-se o incremento da produtividade e da eficiência, ou seja, as variáveis econômicas e desprivilegiam-se as dimensões sociais, representadas pela ubiqüidização do emprego e distribuição da renda.
A crise do paradigma cartesiano-newtoniano - ao nível da luz[2]
Hoje, mais do que nunca, a sociedade humana parece caminhar para um estado de estrangulamento crônico: e a própria justaposição de crises parece desautorizar, completamente, as abordagens fragmentárias e particularistas dos processos históricos. Neste sentido, a inexorabilidade das crises e a sua forma de manifestação atual não poderiam ser consideradas, ao mesmo tempo, como causa e conseqüência de uma mesma problemática. Pelo contrário, elas tendem a colocar em xeque, como corolário, o próprio modelo explicativo de mundo.
Este é um dado forte, mesmo que desconsideremos o aspecto meramente singular da crise, ou seja, o seu caráter de inevitabilidade. Afinal, muitas crises já aconteceram na história; no entanto, a prodigalidade e extrema complexidade da crise atual poderiam indicar, no mínimo, o caminho da cautela.
[1] Atenção para o fato de que o modelo é formado por três instâncias - luz, matéria e espaço-consciencial - articuladas. Ou seja, ele pode ser entendido, a grosso modo, como 3 em 1.
[2] Enquanto marco referencial das explicações científicas.
sexta-feira, 1 de maio de 2009
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